segunda-feira, novembro 22, 2004


A beata vai nua



Entre vagas menos alterosas, boiou até nós uma opinião que, apesar de não ser recente, é muito actual:

“Nos anos 20 havia um objectivo revolucionário acima de todos os outros. Criar o homo sovieticus, bom marxista e camarada obediente, são no corpo e salvo na mente. Era preciso destruir o russo genético. Tirar-lhe a memória, educá-lo de novo e habituá-lo para sempre. O espírito totalitário, seja o dos nazis pela raça ou o dos comunistas pela ideia, é muito mais que um sistema político. Impõe um código de comportamentos. Prático e coercivo. Trata de recriar o homem à imagem e semelhança de uma utopia. Os piores esbirros da história prometeram um mundo de criaturas perfeitas. Um mundo que nunca chegou nem podia chegar.

O vício esgotou o verbo dos moralistas. Eles eram os profissionais do bem e do mal e tinham legitimidade para definir os perigos da alma e da carne. Mas os tiranos tornaram o vício um problema de Estado. Discutem a sua liberdade decretam a respectiva proibição. Eles têm a absurda pretensão de mudar a vida, alterar a natureza e fabricar o homem novo.

(…) O tabaco, como outrora o álcool, é a última vítima das campanhas purificadoras. A Europa de Bruxelas, sempre pronta a legislar sobre tudo e sobre nada, moveu fundos e emitiu normas. Os eurochatos uniram-se contra o cigarro. Portugal tem a mania de ser pioneiro. Um membro do Governo ficou célebre por considerar nojentos os fumadores. Vejo agora um ministro da Educação, sorridente e proteico, assinar um convénio, cujo objectivo, confesso e escrito, é o seguinte: “criar uma geração de não fumadores”. Nem Mais, nem menos. Os sovietes também se propunham coisas deste quilate. E não fumavam Marlboro.

São irrelevantes as contradições de um Estado que é puritano no convénio e que polui nas fábricas. Nem sequer a ironia de um Governo que presume o ar puro e lucra com a Tabaqueira. O que está em causa também não tem que ver com o apartheid do fumo. Pela lógica da protecção ao outro, é compreensível a separação de lugares e de recintos. Pelo dever de informação, é até aceitável a advertência dos perigos. Já é hipócrita a punição do tabaco pelo imposto – inventam-se razões mansas para cobrir um mero desejo de receitas. Nada disto, porém, é essencial. O facto é que o poder, além de legislar, aconselhar e tributar, pretende, agora, o direito de criar uma geração e definir um dos seus predicados: não fumará. Lamento dizê-lo: é o Estado democrático a praticar fascismo cívico.

Tão mau como o Estado-providência é o Estado-madrinha. Parece que Odete Saint-Maurice é chefe do Estado e que Fernando Pádua chegou a primeiro-ministro. São exemplos de uma infantilização do pensamento social. O ministério tomou então a seu cargo a assistência moral ao povo. Como se a democracia, em vez de ser uma escolha entre modelos de sociedade, fosse uma escolha entre modelos de vida. O Estado parte de dois princípios: a sociedade é perversa em si e o poder sendo conhecedor do bem, deve torná-lo obrigatório.

(…) É o resultado clássico deste tipo de operações de limpeza na cidadania. O homem novo, salvo raríssimas excepções, sempre foi mais parecido com o escravo do que com o filho de Deus.”


Paternidade do escrito: Paulo Portas, conforme TomarPartido.

Bem dizia a Prima: Cambada!

Parabéns à Prima.